Inveja

Hoje tocarei num ponto difícil para todos, inclusive para mim. Porque falar de angústia, medo, agonia e ansiedade é bem mais fácil do que cutucarmos sentimentos que a sociedade denomina como ruins, ou pior: de pessoas ruins.

De verdade, todos os sentimentos são dignos, inclusive a raiva, ressentimento, mágoa, repulsa e, por que não, a inveja?

Mesmo que só um pouquinho, em algum momento já sentimos inveja de alguém. Não estou falando da inveja que temos de um artista famoso, ou um esportista de destaque, ou mesmo um político de sucesso. A inveja que mais nos pega é aquela de pessoas mais próximas.

Mas o que é inveja? Alguns dizem que a inveja e o ciúme são a mesma coisa. Mas isso não é verdade — ainda que ambas as emoções andem lado a lado, misturando-se e estimulando-se mutuamente. São parasitas que devoram a nossa alegria. O que elas querem não é que você se dê bem, mas que os outros se deem mal. Já o ciúme é a dificuldade de compartilhar aquilo que consideramos nosso, como o amor de alguém querido. A inveja, ao contrário, não diz respeito a algo que você tenha, mas a algo que o outro tem:

E a tristeza que se sente quando alguém possui o objeto do seu desejo (Emocionário, da Editora Sextante).

Puxa, Jony! Desculpe-me, mas eu não sinto isso. Sente sim! Eu sinto, você sente, a pessoa que está ao seu lado sente. Todos. Pior: quando estamos em alguma fase desfavorável da vida, a inveja nos cutuca com mais sadismo. É duro admitirmos, no entanto, esta é a realidade. E o que podemos fazer com esse sentimento, tão desgostoso, tão rejeitado por todos? Simples: vivenciá-lo.  

Jacob Levy Moreno, o criador do psicodrama, teve uma sacada genial. Na cena dramática do psicodrama, a pessoa escolhida para representar a cena pode voltar a vivenciar algo que aconteceu no passado. Durante a sessão, por vezes, o diretor do ato psicodramático interrompe a cena e permite que o protagonista exponha para ele e aos demais seus sentimentos. Com isso, tanto o protagonista como as outras pessoas vivenciam sentimentos despertados pela cena, liberando emoções represadas.

Portanto, vivenciar a inveja suaviza sua importância. Além do mais, guardar o sentimento de inveja, assim como os demais sentimentos, nos faz mal, a ponto de adoecermos. Vale lembrar que emoção é da natureza humana.

E as pessoas invejosas, aquelas que sugam nossa energia? De verdade, existem pessoas com caráter invejoso. Podem ter nascido assim, ou algum trauma na infância as tornaram desse jeito. De qualquer maneira, esse tipo de indivíduo nos faz mal. Portanto, a meu ver, a melhor atitude que devemos ter é nos afastarmos delas, porque não irão mudar e esses tipos de pessoas usam da sua esperteza para nos atacar, abusar da relação de amizade.

Vale lembrar de que a relação invejoso/invejado é uma relação abusiva. Muitas vezes a inveja que certa pessoa tem de nós é velada. A pessoa nos agride e nós não sabemos o porquê. Por vezes é o nosso próprio comportamento, nosso jeito de ser, como por exemplo sermos altivos. Nem sempre a altivez deriva de arrogância, soberba ou sentimento de superioridade. Nós podemos ter altivez simplesmente por amor-próprio, um berço amoroso e alta autoestima. Portanto, se a pessoa em frente fica com inveja pelo fato de você se sentir uma pessoa altiva, não se culpe. Ela que está errada em te agredir.

Podemos concluir que é digno, vez ou outra, sentirmos inveja de alguém. Aconselho acompanhar as técnicas de Moreno e vivenciá-las; se uma pessoa da sua relação tiver inveja de você, muita, a ponto de agredi-la com atitudes ou palavras, afaste-se dela, afinal, paz e sossego todos nós precisamos e merecemos.

Deste podcast em diante, irei contar uma historinha fictícia sobre o tema em questão. Muitos de vocês podem achar a personagem ou a história parecida com de alguém que conhece, mas é ficção, tudo inventado. De qualquer maneira, a projeção na história é boa, afinal, clarifica e concretiza o sentimento do episódio.

Dois países vizinhos, duas rainhas: Bernardina e Clarissa.

Bernardina era de um país com muito dinheiro devido à extração de cobre. Tanto as cidades como o próprio castelo da rainha eram luxuosos, repletos de comida e nada faltava a ninguém.

O país da vizinha Clarissa não teve a mesma felicidade de possuir terras ricas em minérios, a população vivia da plantação de banana, que pouco dinheiro rendia. O país de Clarissa não tinha saneamento básico, miseráveis dormiam nas calçadas e havia pouco emprego, com exceção do plantio e extração das bananas. Sem renda dos seus vassalos, a rainha também vivia de forma simples, quase na pobreza. Seu castelo era de pedra, desprovido de argamassa e decoração. Ela dormia na cama da sua bisavó, a qual rangia a cada virada de lado da rainha, nos seus constantes pesadelos.

Porém, o destino mudou o rumo das duas rainhas. Um cientista do outro lado do oceano inventou um combustível feito de casca de bananas. Assim, de um dia para outro, o país da rainha Clarissa saiu da miséria. 

No país vizinho aconteceu justamente o contrário, um estudo feito por uma organização protetora do meio ambiente constatou que o cobre era terrivelmente tóxico, principalmente o utilizado na construção civil — vale salientar aqui para o ouvinte que isso é pura história inventada. Sem poder escoar o metal do país, a receita do principado ficou restrita à plantação de gengibre, o que não era suficiente para sustentar os custos do governo nem os da rainha.

Amigas de longa data, as rainhas continuaram a se encontrar. Clarissa arrotava sua nova situação financeira, contando inúmeras vantagens. Parecia que ela queria provocar a amiga. No entanto, com a nobreza herdade há mais de quinhentos anos, Bernardina nada falava, só se encolhia. Clarissa adorava ver sua amiga encolhida, com as costas curvas e os olhos caídos. Parecia que a infelicidade da outra fazia mais bem para Clarissa do que suas próprias conquistas.

Vire e mexe, Clarissa cutucava com o dedo os fracassos que a rival amiga tinha. A maldade vinha em forma de ironia, da pior classe, aquela ironia sarcástica, que arranca os mais cruéis e ruins sentimentos guardados por anos a fio dentro das vísceras da pessoa.

Certo dia, Clarissa foi diagnosticada com uma doença gravíssima. Bernardina, apesar de tudo que a amiga rival tinha feito com ela, foi visitar a enferma no hospital. Com barbas de mentira pelo rosto, Clarissa deixou no ar de que nada demais acontecera com ela, o tratamento fora um sucesso e, em pouco tempo, estaria fora do hospital, sã e salva.

Com educação e compaixão, Bernardina nada comentou, mesmo sabendo através dos médicos que a situação da amiga não era boa. Na segunda parte da visita, Clarissa, mesmo enferma na cama de um hospital, voltou a bombardear a rainha com perguntas pontudas. Na ponta das flechas dessas perguntas vinha o veneno de gente ruim, invejosa.

Bernardina, indignada, respondeu, cordialmente, uma a uma.

Na saída do hospital, grogue com toda a situação, Bernardina disse: Que pena, mesmo com essa trombada que a vida lhe deu, ela nada aprendeu, continua a mesma de sempre.

Publicado por jony1818

Sou coach, psicodramatista, triatleta e maratonista

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: