Ternura

            

Uma pessoa que tem ternura é afetuosa, meiga e carinhosa. Na realidade, a ternura é algo que o outro desperta em nós. De nada vale o outro ter a maior ternura do mundo e nós não estarmos abertos para receber o carinho, afeto ou a meiguice da pessoa.

Os seres com ternura expressam suas emoções, seu amor, de maneira suave e delicada.

A ternura pode vir do canto de um passarinho, do abraço apertado de um amigo, de um beijo no rosto, na boca, uma mão na nossa mão ao andar no parque. Um dos momentos mais grandiosos de ternura é quando a mãe recebe em seus braços o filho recém-nascido. A sombra da árvore pode nos dar a sensação de ternura também, como o prato quente preparado pela mãe que espera o filho chegar da escola, de noite.

Sem dúvida a ternura é um sentimento maravilhoso. Ela abre o caminho para que a amizade e o amor durem.

Identificamos a ternura do outro através da sua fala mansa, suave, do olhar meigo, dos movimentos delicados e da capacidade de demonstrar seu amor e amizade.

Na atualidade, encontrar pessoas com ternura ficou cada vez mais raro. A maluquice do dia-a-dia do século XXI, aliada a quantidade de informações, obrigações, deixou as pessoas extremamente ansiosas. Com isso, a pouca ternura que lhes restaram se dissipou com tudo isso. Não consigo associar uma pessoa com ternura a uma pessoa extremamente ansiosa e inquieta. Para mim, o sossego, a tranquilidade, a paz são elementos de uma pessoa terna.

A ternura necessita do emissor e do receptor, sem essa relação, ela não existe, pois precisa ser identificada pela pessoa receptora o carinho, a meiguice e o afeto que o outro quer passar. Como falei, a modernidade atrapalha, e muito, a relação de ternura. Imaginem um amigo afetuoso, terno, que está sentado de frente ao seu melhor amigo, e este não sai do smartphone. Cada vez que o amigo terno o quer passar tal sentimento, o outro não percebe, afinal, está com seus olhos e atenção petrificados na telinha do aparelho. Se a pessoa carinhosa questiona o tanto que o amigo fica no celular, sem dar atenção ao que o amigo terno fala, vem a famosa resposta: era uma coisa importante, não podia deixar de responder. Portanto, se a resposta imediata de tal amigo no aparelho é de tamanha importância, bem superior ao que seu amigo o quer dizer, passar ou só olhar, então essa pessoa não está apta para receber ternura. Com isso, a relação transmissor/receptor é quebrada, e a ternura fica em segundo plano.

Vamos a nossa história de hoje. Vale lembrar que é pura ficção.

O amigo terno e o amigo ogro.

Jeremias é um indivíduo de uma ternura fora de série. Delicado, prestativo, tem paciência acima da média, Jeremias vive como se estivesse entre os monges do Tibet. Sua profissão ajuda bastante na harmonia, ele é bibliotecário. Tomar conta das palavras escritas numa biblioteca exige ordem, disciplina e gentileza, e o silêncio em volta dos livros traz sossego no corpo e na alma.

Jeremias não é nem alto nem baixo, magro, usa óculos de aro dourado, cabelo aparado e se veste para não se destacar entre os demais. Seu horário de trabalho é sagrado, ele entra às oito da manhã e sai às cinco horas da tarde. No intervalo do almoço, por vezes, tira uma soneca no banco da praça da biblioteca.

Justamente nessa praça que Jeremias encontra um amigo da época de adolescência, o Pietro.

Pietro é filho de italianos. Seus pais se casaram um pouquinho antes de se mudarem para o Brasil. Rigorosos, os pais de Pietro fizeram questão que ele se formasse advogado e exercesse a profissão no escritório de um amigo do pai, o milanês.

De verdade, Pietro não gosta do que faz, poderíamos até falar que ele odeia. Talvez devido a isso, o descendente do país em forma de bota vive mal-humorado. Ogro é o apelido que Jeremias deu secretamente ao seu amigo. “Imaginem se um dia eu deixo escapar esse apelido”, ri envergonhado para si, corando de rosa suas bochechas.

Como de costume, pontualmente ao meio-dia, o bibliotecário pega sua marmita, vai até o banco da praça e inicia seu almoço. A comida já vem toda cortadinha para facilitar, pois comer sentado num banco de uma praça, sem mesa, é complicado. Ele mastiga vinte e duas vezes cada pedaço de carne, em seguida toma um gole do suco de uva de caixinha, até terminar toda a comida. Jeremias detesta desperdiçar alimentos.

Atrasado, Pietro chega na praça com espuma de preocupação escorrendo pela boca. Ele se senta do lado do amigo, o cumprimenta sem muita atenção, abre seu Tupperware e despeja toda a comida na sua goela. A pressa tira totalmente o gosto da comida e faz com que ela desce pelo esôfago em pedaços grandes. Espantado, Jeremias comenta: “Calma, amigo, assim você acaba com seu estômago!” Com os olhos em outra direção, o Ogro responde: “já tomo quarenta miligramas de Omeprazol, qualquer coisa, aumento para oitenta.”

Queria ser simpático com ele, oras! Resmunga Jeremias. Mesmo com a resposta atravessada do ogro, o amigo volta a falar: “Eu sei, Pietro, porém não é bom você tomar muito Omeprazol, ainda mais se for por longo tempo. Segundo os médicos, não faz bem. Se quiser, posso lhe passar uma reportagem recente que fala justamente sobre isso, parece que foi uma pesquisa de Oxford ou outra faculdade importante.” A delicadeza nas palavras de Jeremias não foi suficiente para que outra resposta atravessada viesse do Ogro: “e por acaso essas pesquisas levam a algum lugar? Deixa os cientistas com seus estudos e eu com meu jeito de comer.”

Jeremias decidiu não insistir mais. Se ele não quer seu bem, não será eu que vou convencê-lo disso.

Ao notar falta de palavras entre os amigos, um canário da terra, com barriga estufada do almoço, cantou. Jeremias notou as notas musicais do pássaro, olhou e viu um filete de luz do sol iluminando as asas semiabertas do canário. Foi abaixando os olhos até encontrar o pé da árvore, cuidadosamente entrelaçada na terra do pátio da praça, anos de trabalho. Voltou para cima e notou outro canário — possivelmente um macho, atraído pelo canto da futura amada. A cena quase tirou uma lágrima de Jeremias.

Com felicidade estampada no peito, virou-se para o amigo e, quando ia comentar o canário, o sol, a árvore e o namorado do canário, notou seu amigo grudado na tela do celular, como sempre. Jeremias pisca o olho três vezes e se volta para Pietro: “Vamos conversar um pouco, deixe por alguns minutos seu celular de lado, faz mais de uma semana que não nos vemos. Eu estava com saudades de você, dos nossos papos, você não?” Pietro nada responde, continua atento na sua pequena tela. De repente, levanta os olhos e diz: “Eu não estava com a mínima saudade. Larga a mão de ser sentimental. Se dá a gente se encontra aqui, se não der, tudo bem: estou com a semanas lotada de coisas.” “Mas se encontrar com um amigo e trocar algumas ideias não faz parte da sua semana?” Quase que Jeremias fala: se não é importante nosso encontro e nossas conversas, por que vem aqui todas as segundas-feiras? A necessidade faz Jeremias insistir: “Vai Pietro, larga o celular, estou precisando desabafar um pouco. Ontem tive um dia ruim.” “Todo mundo tem dias bons e dias ruins, querido”, Pietro debocha do amigo. Dá para ver através da tela do seu smartphone a falta de brilho nos olhos do Ogro.

Chateado, Jeremias decide se levantar e ir embora.

Por trás dos ombros ele ouve: “Amanhã a gente conversa com mais calma, o escritório está pegando fogo de problemas. Fique bem…”

Jeremias sai da praça e se senta no meio fio, com olhos distantes. Seus braços não sabem onde parar. Finalmente encontram seu lugar: sobre os joelhos dobrados. A cabeça acha o conforto necessário ao encostar a testa nos braços. Ouve uma voz carregada de pinga: “Aconteceu alguma coisa, amigo, está tudo bem?”

Jeremias olha de lado e reconhece o senhor que dorme na calçada da rua em frente à praça. Jeremias sorri e percebe que o homem está descalço. Sua roupa não passa de uma camiseta do Flamengo, toda furada, um cobertor sujo em volta do pescoço e bermuda jeans, com manchas de comida dos dias anteriores. Na cidade, o termômetro acusa apenas um dígito. Como essa criatura aguenta esse frio sem agasalhos, no meio da rua? Pensa o bom homem. Continua: De noite deve ser um horror, coitado, a cara dele reflete seu estômago vazio. Jeremias salta e pergunta ao mendigo: “vamos tomar café da manhã?” “Onde?” “Lá na padaria.” “Eles não gostam de pessoas com eu lá.” “Ok, espera aí.”

Cinco minutos depois, Jeremias cruza de volta a rua, dá um copo de café com leite bem quente ao homem, um sanduíche de presunto com queijo derretido e se senta ao seu lado, no meio fio mesmo, com outro copo na mão. No meio da refeição, o mendigo pergunta ao bom homem: “Percebo preocupação no seu semblante, quer desabafar algo? Sou todos seus ouvidos.”

Publicado por jony1818

Sou coach, psicodramatista, triatleta e maratonista

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