Amor

      

De todas as emoções, o amor talvez seja a mais contraditória. Ele pode provocar em nós um sorriso gigantesco ou uma cachoeira de lágrimas.

Há dezenas de amores, como: amor de mãe, de pai, de amigos, amor a um time de futebol, amor por um parceiro(a), amor por um pet e muitos outros. O sentimento de amor pode ser tão forte a ponto de sufocar, ou pior, quando não correspondido, levar ao suicídio, como no caso do belo romance ‘Os sofrimentos do jovem Werther’ — de Wolfgang Von Goethe.

Então podemos dizer que o amor correspondido é um sentimento positivo, que só nos traz coisas boas? De maneira alguma. Se uma mãe ama seu filho em demasia, colocando-o num altar, ou se é protetora demais, esse amor é prejudicial a ambos. A mãe também pode extrapolar o amor de mãe para filho a algo mais parecido à tragédia edipiana da mitologia grega. Se um indivíduo ama um amigo a ponto de não procurar outras amizades, ou de sufocar o amigo levando a amizade a escorrer pelas suas mãos, também não é bom. O excessivo amor de um rapaz por uma garota — ou vice-versa — também pode ser ruim, o que pode ser mais um castigo do que algo prazeroso. E o ciume? Ao extremo, com certeza é um sentimento que contamina de veneno tudo de bom plantado entre as pessoas envolvidas. Se um grupo de torcedores de um time de futebol ama a equipe na eminência de provocar violência nos estádios ou nas ruas, esse amor vai por água abaixo. Portanto, devemos ter muito cuidado com o amor.

Em contrapartida, o amor é um sentimento que nos deixa com o sorriso atravessado de uma bochecha a outra. Com ele, o tempo carrega em seus ombros a felicidade. O amor nos traz a beleza da vida, nós respiramos mais cadenciado — ou não, quando a paixão ainda borbulha —, o mundo fica com cores incríveis, o ruim passa desapercebido, além dos hormônios dissipados pelo corpo que nos deixam mais relaxados e alegres. E por mais que evitamos, o amor aparece na nossa frente quando menos esperamos. Portanto, vai um conselho: nunca fuja dele, vivencie cada milésimo de emoção que o amor lhe traga e, se possível, corresponda esse amor, assim ele se tornará completo, fechado, como uma Gestalt, percorrendo os trezentos e sessenta graus desse círculo vicioso que se chama amor.

Agora vamos a nossa história:

Dessa vez vou aproveitar um vídeo maravilhoso que recebi de um amigo. Nele, o narrador, Flávio Ferraz, diz que amigos curam. Flávio Ferraz continua: “Um estudo na Universidade de Los Angeles fala que a amizade é realmente especial. Os amigos ajudam a preencher as lacunas emocionais e nos ajudam a lembrar quem realmente somos. Eles constituem um abrigo no mundo real, cheio de tempestades. Após 50 anos de pesquisas, identificou-se que existem substâncias químicas produzidas pelo cérebro que ajudam a criar e manter laços de amizade. Os pesquisadores ficaram surpresos com os resultados do estudo: quando o hormônio Ocitocina é liberado como parte da reação ao estresse, os amigos sentem a necessidade de se agrupar. E quando os amigos se reúnem, é produzida uma quantidade ainda maior de Ocitocina, além das Endorfinas, Dopamina e Fenilalanina, que reduzem o estresse mais agudo e causam sensações prazerosas e divertidas. Ter amigos nos ajuda não apenas a viver mais, mas também viver melhor. O estudo de saúde indica quanto mais amigos tivermos, maior a probabilidade de envelhecermos sem problemas físicos e com boa saúde. O estudo conclui que a amizade é uma excelente fonte de alegria, força, saúde e bem-estar.”

Duas amigas.

Claudia conheceu Fernanda numa Olimpíada de Matemática. A moça, de estatura baixa, era magra igual a um palito de fósforo, com pele rosa, possuía um cheiro que ficava na lembrança o dia todo, e sua alegria fluía por todos os poros do seu corpo. Claudia esbanjava conhecimento da matéria de axiomas lógicos e não lógicos. Fernanda, vinte centímetros a mais que a amiga, quadril forte, tornozelos grossos e sorriso escondido atrás das preocupações, fazia de cabeça as mais complicadas operações aritméticas.

A amizade das duas começou exatamente na olimpíada, elas foram escolhidas para o mesmo grupo da competição. Claudia dominava trigonometria e geometria. Fernanda completava o conhecimento da nova amiga com sua expertise em álgebra, soma, subtração, multiplicação e divisão.

Depois de três dias de competição, a equipe das duas amigas passou para a semifinal. Eufóricas, fantasiavam o que fariam com cada centavo da premiação. Claudia iria guardar vinte por cento na poupança e com o restante viajaria com a amiga ao Antigo Continente. Fernanda deixaria uma parte para os pais, porque o dinheiro ficara escasso na casa desde o dia que o pai falira, e ela sofria ao ver sua mãe economizando na feira e no supermercado. Terminada a competição, a dupla ficou com o segundo lugar, o que lhes deu fama e um terço do dinheiro sonhado. Mesmo com o prêmio menor, seus planos foram mantidos, também a amizade.

Claudia adorava ir à casa da amiga. Podia-se andar de patinete nos corredores do apartamento, tamanha suas dimensões. O luxo se escondia por falta de brio, possivelmente pela escassez de dinheiro da família. O quarto de Fernanda radiava bom gosto e ordem. A única coisa que incomodava a visitante era o pai da amiga. Não por ser um homem mau ou rabugento, ao contrário, era quieto e de feição bondosa. O homem ficava concentrado em algum pensamento disperso, como se o mundo estivesse quebrado em pedaços, igual a um prato de porcelana despedaçado no chão. Fumava e bebia o dia inteiro. Aquele ar de tristeza no rosto do pai falido deixava Claudia desconsertada cada vez que passava pela sala e tinha de cumprimentá-lo. Fugia como uma lebre para o quarto da amiga após o encontro de olhos e saudações.

O estado de saúde do pobre homem foi piorando dia após dia, até que seu coração não aguentou mais tanta tristeza e se rompeu. 

Fernanda, filha mais velha, assumiu as responsabilidades da casa, pois sua mãe caiu na depressão e o irmão nem havia completado doze anos. Portanto, no auge dos seus dezenove anos, Fernanda começou a vender semi-joias. O valor das vendas cobria o supermercado, condomínio, luz e água. Ela conseguiu bolsa integral para seu irmãozinho e parou de estudar, porque durante o dia Fernanda trabalhava como telemarketing e de noite fazia as vendas e as entregas das joias. Devido à falta de tempo, a moça não conseguiu digerir o luto.

Desde o falecimento do pai da amiga, Claudia não desgarrou mais daquela casa. Vivia mais lá do que na sua própria casa. Quando batia a tristeza em Fernanda, Claudia a abraçava e só largava dela ao sentir seu choro dissipar. Todas as noites, a amiga acompanhava a guerreira Fernanda nas entregas das semi-joias. Ela adorava observar a habilidade da companheira das Olimpíadas de Matemática nas vendas e na cobrança dos cheques. Não tem dinheiro para hoje, disse Fernanda, sem problema, amanhã passo de novo e pego. Pode ser pré-datado. A cliente veio com o argumento da falta de dinheiro, ela insistiu, de maneira suave e experta, e ofereceu o pagamento em parcelas. No carro, Claudia perguntou: e se os cheques voltarem, como você irá pagar a mercadoria? Fica tranquila, amiga, sei o que estou fazendo: essa cliente tem muito dinheiro, ela é indecisa e a mão dela demora para abrir. Em outra cliente, aconteceu o contrário. Assim que a madame disse precisar pagar com cheques pré-datados, Fernanda balançou a cabeça negando o crédito. No carro, novamente veio Claudia com dúvidas nas palavras: por que desta vez você não deu crédito para essa cliente? Ah! Querida amiga. Apesar da madame morar naquela mansão, se vestir como uma milionária, tenho informações de fonte segura de que ela passa por dificuldades. Sua casa está hipotecada e deve uma boa quantia aos bancos. Claudia ficou de boca aberta. Como Fernanda, tão jovem, já sabe tanta coisa?, pensou.

Devido às inúmeras preocupações, o estômago de Fernanda não aguentou. As feridas obrigavam a moça parar o que estava fazendo, fosse o que fosse, e comer qualquer coisa. Naquele momento, o pipoqueiro apareceu como um mágico. Claudia desceu do carro, comprou o saquinho de milho branco e entregou à amiga indefesa pela dor. Ela mastigou alguns punhados como se fossem bálsamos. De repente, surgiu uma cratera, e o ar, em rodamoinhos, igual a água da banheira escorre para o ralo, foi sugado para o buraco. Fernanda tentou desesperadamente respirar, mas não conseguiu. Sua amiga notou na hora. Meu Deus! A casquinha do milho entalou na sua traqueia, pensou. Uns tapinhas resolverão. No entanto, quando iniciou o movimento, Claudia descobriu o que se passava com Fernanda: era emocional.

Desde a morte prematura do pai, a moça havia assumido a casa, como se o lugar deixado por ele não pudesse ser repartido entre os três.  Fernanda se sentia responsável pelo irmão e pela mãe. Em momento algum seu pai tinha lhe dito que, caso ele faltasse, ela seria o esteio da família, mas, por ser a primogênita e pela fraqueza psicológica da mãe, Fernanda tomou a dianteira, pegou o bastão de cacique do lar e seguiu sem olhar nem para trás, nem para os lados. Porém, os seres humanos não são só razão, longe disso, nós somos movidos o tempo todo pelas nossas emoções. Fernanda tentou driblar o luto da perda do pai e a tristeza de nunca mais poder abraçá-lo com o trabalho, os estudos de madrugada e a responsabilidade de cuidar do irmão mais novo e de sua mãe. No entanto, uma hora a conta chega. Por sorte, Claudia estava lá, com seu arsenal de aconchego, carinho e amor. A baixinha deu um abraço em Fernanda tão forte e tão sincero que o ar, sugado anteriormente pela cratera, voltou. Com os pulmões cheios de oxigênio, Fernanda sentiu um sussurrar no seu ouvido: estou aqui, amiga, do seu lado, para o que der e vier. Sempre estarei.

Publicado por jony1818

Sou coach, psicodramatista, triatleta e maratonista

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: