Irritação

            

Você já se irritou hoje? Antes de responder, pense bem. Ah! Jony, acordei há meia hora, nem deu tempo de me irritar? Será? E o despertador do seu celular que tocou várias vezes? Você tenta desligar e, com sono grudado nos seus olhos, dá um tapa na tela dele, não para de tocar. Dá o segundo tapa, não desliga. Que inferno de alarme! Diz. Depois, perde a paciência e dá um tapa tão forte que ele voa. Onde cai? Isso: entre a criado-mudo e a cama, bem no lugar que sua mão não entra. Dane-se, você volta a dizer. Porém, o aparelho é insistente. Após exatos nove minutos, aquele som de enfurecer a mais calma das noviças do convento, toca novamente. Você acorda, procura desesperadamente o grilo falante feito de vidro e metal, mas não encontra. O som continua. Você se levanta, acende a luz e vê o desgraçado deitado de lado. Tenta colocar o braço entre a cama e a cabeceira e raspa toda a lateral do braço. Dá um grito: Maldito! Maldito! Pois é! Uma manhã normal, igual a de muitos de nós.

Embora se irritar cedo com o despertador seja algo comum, vamos imaginar que você acordou de bom humor e nada disso aconteceu. Toma seu café da manhã do lado da sua querida cadela labrador, Laica, dirige tranquilamente seu carro, ar condicionado na temperatura mínima, o Spotify canta Noah Jones, o trânsito flui como um rio a caminho do mar e, conforme seu coach recomenda, deixa o celular de lado. No farol da Av. Rebouças com Av. Henrique Schaumann, um guri bate no seu vidro. Você dá um pulo, quase bate sua cabeça no teto do carro, se vira para ele com a sensação de que será assaltado, mas descobre que ele apenas quer vender caixinhas de chiclete de hortelã — daquelas marcas bem vagabundas. Pensa em abrir a janela e ajudar o menino abandonado pela justiça dos homens, no entanto, receoso de que é uma arapuca, abana a cabeça junto com a mão no sentido negativo. O guri vai embora, e você torce para o sinal abrir logo. Uma gota de suor de tensão escorre com capricho pela face direita. Verde. Ufa! Vai em frente. O telefone toca. Pensa em não atender, mas é sua mãe. Enquanto o toque da chamada vai cutucando seus pensamentos entre atender ou não, o trânsito muda de humor, e para antes do túnel da Av. Faria Lima. Para e anda, para e anda. Que inferno. Resolve atender: 

— Alô. Bom dia mãe. 

— Filho, por que não me ligou de manhã? Sabe que gosto de ouvir sua voz. Afinal, desde que sua irmã me trocou pela Austrália e a morte do seu pai, só tenho você. 

Aquela cobrança materna no meio da Av. Rebouças quase te tira do sério. Entretanto, como prometera ao seu coach, não iria se irritar com coisinhas bobas do dia a dia. Respira fundo, deleta na sua mente a cobrança da mãe, não responde e segue perguntando como ela está. A sábia senhora, conhecedora da montanha russa da vida pelos seus oitenta e três anos de sobes e desces, responde de maneira simpática: 

— Está tudo bem, filho, as quinze pílulas de remédios me mantêm aqui no mundo. 

Mais uma pitada de ironia. Não, ela não irá me tirar do sério logo cedo. Por sorte, outra ligação entra, é a Karen, para combinar o horário e local da corrida do final da tarde. 

— Mãe, preciso desligar, meu chefe está ligando. Na escala de um a dez, essa mentira ficaria com a nota cinco. Corta o está bem no meio e atende sua pacer favorita. Assim que ouve a corredora, bate o remorso: Não devia ter desligado o telefone. Mãe é só uma. Desde a morte do marido, ela ficou bem mais sensível. Puxa vida! Devo ou não ligar de volta?

Daí, uma buzina ensurdecedora vem do carro de trás. Você se irrita. Pensa em fazer um gesto obsceno pelo espelho retrovisor, todavia se controla. Briga de trânsito pode terminar em morte, pensa sabiamente. Parte com o carro e decide fazer a respiração aprendida num vídeo do YouTube: tampe a narina direita e inspire por dez segundos com a narina esquerda. Depois, expire pela mesma narina, quinze segundos. Destampe a narina direita, tampe a esquerda e faça o mesmo procedimento com a outra narina. Dez vezes. Acalma. A irritação sai pelo escapamento do carro. 

Chega no trabalho. A gerente de vendas, vizinha de vaga, estacionou seu carro em cima da faixa amarela. Não é a primeira vez, pensa. A árvore do outro lado não permite que você faça a manobra, e não consegue estacionar. A irritação acorda de vez. Você solta um grito, bate com força no volante e liga para a moça. Dá para você descer e tirar essa merda de carro da minha vaga?

É impressionante, por mais que queiramos ficar longe da irritação, ela aparece, nos persegue, como um buscapé na época de São João. 

Um pouco de teoria:

Irritação é a ação e o efeito de irritar. Este verbo, por sua vez, faz referência ao fato de causar excitação exagerada no corpo. Em termos de saúde, a irritação pode apresentar-se com diversos distúrbios ou doenças. 

De vez em quando é normal sentir irritação. Este estado de humor é uma resposta natural do organismo a uma situação que gera desconforto ou indignação. Ele serve para nos ajudar a mudar a realidade e recuperar o bem-estar emocional. No entanto, em várias ocasiões, a irritação nos ajuda a desenvolver mecanismos para evitar o desagradável.

Algumas pessoas ficam irritadas com mais frequência. Moradores de grandes centros, por exemplo, têm mais chances de esbarrar com situações que causam irritação em comparação aos moradores do interior. Uma cidade maior, com mais pessoas e movimento constante, naturalmente atrai mais estresse.

Todavia, esse estado de humor deve desaparecer em algum momento. Pode demorar alguns minutos para você se acalmar e sentir-se bem novamente ou pode ser prolongado. Mas, no fim, a irritação some.

É preciso ficar atento quando a irritabilidade parece não querer deixá-lo. A sua permanência pode ter outro significado.

Existem indivíduos que são irritantes, principalmente quando estão irritados. Esse tipo de pessoa irrita o outro sem parar, até o outro ficar irritado também. Quando isso acontece, o indivíduo que estava irritado se acalma, e sua irritação passa. É uma situação horrorosa, e ela piora quando você descobre que a irritação da pessoa passou assim que a sua emergiu. Vou classificar essa pessoa como cinquenta por cento tóxica, porque quando ela não estiver irritada, deixa de ser tóxica.

Tem aquela pessoa que se irrita por tudo. Tudo mesmo: basta você abrir a boca ou fazer alguma coisa, que a pessoa solte o verbo contra você, agressiva e irritada. Essa pessoa é cem por cento tóxica. 

Conheço também o indivíduo que se irrita com garçons ou atendentes no geral. Ele se irrita, bufa e agride desrespeitosamente o atendente. É uma situação de extremo constrangimento para todos, menos ao irritadinho. Classifico como cem por cento tóxico esse tipo de indivíduo.

Poderíamos enumerar vários modelos de indivíduos irritadinhos, é até divertido, mas vamos deixar para uma outra ocasião. O que mais importa é saber do porquê nos irritamos ou vivemos em um momento da vida que tudo nos irrita.

Uma das razões é a noite mal dormida. Se temos poucas horas de sono, ou se dormimos mal, como acordarmos sucessivamente durante a noite, ou ficarmos por horas acordado minhocando tudo que vem na cabeça, com certeza a possibilidade de nos irritarmos durante o dia será bem maior. 

Outra razão é o número alto de problemas que temos de enfrentar no dia ou nas próximas semanas. Por vezes, o excessivo compromisso nos traz irritabilidade.

Outro fator que nos irrita é estar numa situação ruim e não enxergamos uma maneira de sair dela: como um namoro desagradável, uma sociedade ou casamento tóxico…

Também a situação do país, sem perspectiva de melhora nos traz irritabilidade.

Outro fator seria a falta de propósito. Sim, quando viajamos pela estrada da vida sem um propósito maior, a possibilidade de entrarmos num processo de irritação, seguido de melancolia ou depressão é bem grande.

E como podemos driblar todas essas situações, Jony? Pode me perguntar.

Alegria. Sim, a alegria é o maior antídoto para superarmos emoções que nos levam para um buraco, como a irritação. 

Mas como conseguimos alcançar a tal alegria se estamos em situações adversas como as expostas por você acima, Jony?

Ah! Minha cara ou meu caro! Existem algumas maneiras. Muitas delas já descrevemos no próprio podcast. No caso da irritação, o que sugiro é se afastar das pessoas que lhe tragam irritabilidade. Sei que não é fácil, principalmente se for um namorado, um sócio ou algum familiar que você constantemente vê ou fala. Portanto, procure se afastar das pessoas que não te geraram nenhum constrangimento interno caso o faça. Por exemplo, um atendente mal educado e grosso, que você se depara cada vez que vai a uma padaria. Troque de padaria, ou de turno. Um amigo tóxico. Tire ele do seu caminho. 

Depois, procure as pessoas que lhe tragam alegria, como uma filha ou filho, um neto ou neta, uma sobrinha. As crianças nos trazem alegria, pela sua pureza, é algo encantador ver os pequeninos olhos delas brilharem. Tenha mais contato com a natureza. A mãe natureza é uma fonte inesgotável de alegria. Cachoeiras, o ar da montanha, o vale distante, árvores centenárias, canários e até um bicho preguiça atravessando lentamente na sua frente. Veja mais o pôr do sol, fale com ele, agradeça a ele por estar lá. Namore, faça sexo, abrace, beije, tome um café quentinho, sozinho ou com alguma amiga simpática. E, principalmente, dê boas risadas, a risada é o maior de todos os antídotos para sua irritação. 

Um beijo no coração. 

Publicado por jony1818

Sou coach, psicodramatista, triatleta e maratonista

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