Alívio

                           

Entrar no portão de Birkenau — Auschwitz 2 — é algo assustador e inesquecível. Sessenta anos depois da libertação dos poucos sobreviventes, fui visitar o local mais aterrorizador que o ser humano — se podemos denominar essas pessoas de humanas — pôde criar. 

O cinza do céu e a entrada do inverno nos alertou do que significaria a visita. Uma leve brisa empurrava as gotas do chuvisco para dentro de nós. Eu estava agasalhado da cabeça aos pés. Pensei naquelas pessoas com finos pijamas listrados, esqueléticas devido às trezentas calorias diárias de água disfarçada de sopa, e meus olhos se banharam de lágrimas, pela primeira vez, de muitas. 

Lá estava ele: o famoso portão de madeira com suas duas torres nas laterais, descritos com primor no filme do brilhante Spielberg: A Lista de Schindler. Contive meu choro, mas as lágrimas novamente não me obedeceram.

Caminhamos por uma inesgotável distância até chegarmos no local onde as pessoas da fila dos vivos se banhavam, para tirar carrapatos, piolhos ou alguma doença imaginária vinda das mentes daquelas pessoas sem a mínima empatia. Vale explicar fila dos vivos. Na entrada desse Campo de Concentração havia um jovem médico do Partido Nazista, com o pseudônimo Anjo da Morte — Josef Mengele. O cruel nazista classificava pessoalmente aquelas pobres almas em duas filas: das pessoas que iriam direto para as câmaras de gás e as que poderiam viver por um tempo para trabalhos forçados e experimentos humanos mortíferos.

A guia, uma argentina sensível e conhecedora a fundo dos fatos, nos contou algumas histórias, uma pior do que a outra. Ninguém conseguiu conter suas lágrimas. No meio do choro de todos, surgiu uma frase, não me lembro de quem. “Quando uma pessoa ri, todos sabem o motivo, mas quando ela chora, só ela sabe o porquê.”

Pelo resto da viagem, a frase martelou minha cabeça, como o martelo bate na bigorna nas mãos de um habilidoso ferreiro. Por fim, cheguei a conclusão: a frase é verdadeira.

O choro. 

Ao chorarmos, sentimos alívio. O sofrimento represado flui para fora, vai embora. Mas só nós sabemos sua origem, sua dor e sua intensidade. Portanto, o choro é nosso, só nosso.

Talvez o choro seja a maior expressão de alívio que um ser humano pode ter. Existem outras: o resultado negativo de um exame clínico, o término da dor física, ou quando seu filho chega em casa tarde da noite.

Todavia, choro é choro. 

Preocupações, tristezas e angústias, quando deixadas de lado, com ou sem choro, nos traz a prazerosa sensação de alívio. É como se todo o sofrimento anterior houvesse sido desnecessário.

Vamos a nossa historinha.

Lizzy nasceu em Santa Bárbara, Califórnia. Cresceu e lá fez faculdade, pertinho do Vale do Silício. De verdade, tecnologia de nada a atraía. Lizzy gostava das artes e dos livros. Graduou-se em Ciências Sociais e se tornou doutora  em História na Universidade de Boston. Sua tese foi fundamentada na construção da sociedade brasileira devido a mistura de etnias.

Por que História do Brasil? A resposta saía da sua boca com gosto de bolo de fubá: minha avó era brasileira, baiana, de Itapuã. 

Desde menina, quando ouvia as encantadoras histórias de sua avó, seu sonho era conhecer a casa onde ela morou. Contudo, a rotina afastou Lizzy da costa brasileira.

Raramente a moça saía com amigos e amigas, o trabalho e o contínuo estudo não permitiam. Mas, certo dia ensolarado de Boston, na biblioteca da faculdade, ela se deparou com um homem alto, de pele alva, cabelos ruivos e sorriso de pessoa do bem. Eram opostos fisicamente, afinal ela era baixinha, de pele morena, cabelos grossos de índios e suas curvas não conseguiam esconder a descendência baiana.

Nem ele, nem ela se consideravam apaixonados, no entanto, a cama era razoável, os interesses sociais e culturais comuns, além disso, raramente eles brigavam. Existia felicidade entre eles. Tal felicidade levou o casal ao altar na famosa Igreja que Elaine — personagem interpretada por Katherine Ross em A Primeira Noite de Um Homem  — ia se casar.

Ótimo, não. Bom, também não. Mais ou menos, isso! O morno predominava no lar do casal. Porém, em uma terça-feira chuvosa, Martin, acompanhado de todo o constrangimento do mundo, confessou estar apaixonado por outra mulher. Pressionado, também confessou manter relação com ela desde antes do casamento. Lizzy pensou em atirar o vaso de cristal tcheco, presente de seu pai, na cabeça dele. Não, ela não era isso. Enquanto a raiva a corroía como se tivesse sido jogada num tanque cheio de ácido sulfúrico, um filme de tudo de ruim da sua vida passou. Pensou em chorar, mas não queria dar esse prazer ao maldito do seu marido, um adúltero, mentiroso e sem caráter. Aquele sorriso de gente do bem foi uma falácia. As pernas da moça não aguentaram e ela caiu no sofá como um boneco sem vida.  Recuperou os sentidos e não permitiu um só fio de dúvida: ela se separou naquela manhã mesmo. Saiu de casa com duas malas, sem destino, e seu semblante estava encoberto pela tristeza e decepção.

Casa da mãe? Voltar para Santa Bárbara? Não! Ela aceitou o convite de uma amiga, também solteira, de ficar por um tempo na sua casa em São Francisco. Seria melhor não mudar radicalmente de vida. Ela precisava de dinheiro, seu emprego tinha de ser mantido. 

Nas primeiras semanas Lizzy negou todos os convites da amiga para bares ou baladas. Estava arrasada. Apesar de os pais terem se divorciado quando ela tinha oito anos, o casamento até a morte os separe fazia parte de seus planos. As insistências da amiga continuaram, então Lizzy cedeu e aceitou correr com o grupo de domingo. Lizzy se sentiu em casa com a turma, parecia fazer anos que corriam juntos. Embora todo o calor humano da equipe de corrida, a moça continuava um peixe fora d’água e acabou abandonando o grupo.

Vamos à balada, umazinha só, não vai te tirar pedaço. Insistia a amiga. Por fim, Lizzy flexionou sua resistência e foi dançar. O barulho, a pegação, o desrespeito por parte de alguns rapazes, fizeram com que Lizzy fugisse da sua primeira experiência noturna como um gato escaldado corre da água fria. 

Trabalho, casa, séries na TV, trabalho, casa, séries. Semanas, meses se passaram nessa rotina e, com passar do tempo, a solidão levou Lizzy a uma profunda tristeza. Dois anos depois da separação dos pais, Lizzy se deprimiu e teve de recorrer aos remédios e a psicoterapia. Na época, o desânimo congelava qualquer tentativa de reação da menina em ir para a escola e retomar uma vida normal. Por pouco não ficou com Síndrome de Pânico, pois, além de pensamentos negativos constantes que poderiam levá-la a morte, o medo de colocar o pé para fora de casa era cruel. Por sorte, tanto os remédios como a terapia fizeram efeito e tiraram Lizzy daquele perigo. Ela morria de medo de voltar a passar por aquilo tudo, portanto, Lizzy cedeu e, por sugestão da amiga, entrou em três desses aplicativos de relacionamento.

Match, jantar, sexo, match, jantar, sexo. A moça de Santa Bárbara estava viciada nos aplicativos e no sexo casual. Se analisarmos com uma lupa, Lizzy buscava freneticamente alguém que pudesse preencher o vazio que sentia desde a separação de seus pais. 

Com raras exceções, o ser humano não nasceu para viver sozinho. Contudo, procurar alguém para resolver o problema da solidão pode não ser a solução mais sábia. De verdade, entender o porquê existe tal vazio seria o melhor caminho para Lizzy, mas isso levaria outros anos de psicoterapia, e ela não tinha nem vontade, nem paciência e, muito menos, coragem para enfrentar o divã. Continuou sua busca pelo príncipe encantado em seu cavalo branco.

Decidiu mudar de ares e voltou para Boston.

Na cidade da Universidade de Harvard, os aplicativos continuaram  no celular de Lizzy. Os encontros diminuíram, mais ela continuava dependente daquelas rasas relações. Ópio, assim poderíamos classificar a relação de Lizzy com os aplicativos. Apesar de não notar, sua tristeza foi subindo a montanha e, gradualmente, a depressão voltou. Os aplicativos, os encontros casuais que pareciam ser a solução para Lizzy, tornaram-se um tormento em sua vida. Ela não conseguia desgrudar os olhos da tela do celular. Essa dependência, além de prejudicar a moça em seu trabalho, a afastava de pessoas queridas, chateadas pela falta de atenção e consideração da amiga. Não, falava para si, dessa vez vou até o fim, esses aplicativos me salvarão. Contudo, nada disso aconteceu. Pior, Lizzy começou a chorar a todo o momento, sem motivo aparente.

Por fim, ela decidiu curvar os joelhos da teimosia e foi procurar um profissional. Professor da Universidade de Boston, o psicanalista fez uma única observação que despertou em Lizzy todos os insights do mundo: minha cara Lizzy, deixe o Universo conspirar a seu favor.

Com o sorriso atravessado pelo rosto, Lizzy, aliviada, saiu do consultório do sábio doutor, comprou uma passagem para o Brasil e foi conhecer a cidade e a casa da sua avó. 

Salvador diferia em tudo que Lizzy pôde imaginar. A doce avó dissera a neta que Salvador era uma cidade tranquila, de gente calma e passos lentos. No entanto, desde sua chegada ao aeroporto, nunca vira tanta desordem, tanta gente falando alto e tamanha quantidade de carros.

No táxi, o sorriso das pessoas foi a primeira coisa que despertou prazer em Lizzy. Do mar vinha uma brisa forte, o que suavizava aquele calor insuportável. O que é isso?, perguntou a americana com sangue de brasileira nas veias. Esse aqui é o Farol da Barra de Salvador, o primeiro farol das Américas, respondeu o taxista com a boca cheia de orgulho. Depois, o motorista perguntou: antes de ir a Itapuã, gostaria de conhecer um pouco mais da cidade? O sangue da vergonha subiu na face de Lizzy. Ele notou pelo espelho o rubor positivo na passageira e acelerou para outros pontos turísticos da cidade.

Apesar do encanto que a cidade lhe trazia, Lizzy não via a hora de seguir a Itapuã e conhecer a casa da avó. Sua avó representava o colo de afeto que a americana não tinha dos outros parentes. Não que eles não a amassem, longe disso, Lizzy foi e ainda é amada pela mãe, pai e avós paternos. Mas com a vovó baiana a coisa pegava no abraço, no sentar-se no colo e em encostar a cabeça no ombro dela.

Lizzy almoçou na capital baiana, de pé mesmo, acarajé. Em seguida foi direto a Itapuã.

Enfim chegou. Lá estava ela, a casa da sua avó. Porta de madeira pintada de um amarelo vivo, capricho no pequeno jardim da entrada, portão de ferro e do lado uma campainha. Ela apertou. Com um bebê no colo, uma jovem atendeu. O que deseja? Sem jeito, Lizzy explicou a situação. Lógico! Entre, querida. Na casa, tudo era novo. No ano passado, nós fizemos uma reforma geral, no entanto, essa mesa da sala de jantar ainda é da sua avó: madeira rara, trabalho de um artesão mágico. Não tínhamos como desfazer dela. Lizzy passou suavemente os dedos na mesa e sorriu. Uma gota de saudade brotou em seus olhos.

Lizzy não quis incomodar a moça e ficou pouco na casa.  Ao sair, surgiu como um sopro de mágica um rapaz. Este é o Jean, meu irmão, disse a mãe do bebê.

Os olhos azuis do irmão da dona da casa, adicionado a um sorriso espantosamente encantador, fez Lizzy flutuar alguns instantes acima do assoalho. O tempo sussurrou palavras indecifráveis em seu ouvido, e uma quantidade absurda de alegria preencheu todos os vazios de decepção e desânimo. Na rua da amargura, apareceu, do nada, uma cachoeira de água brilhante e limpa. Por cima dela, o arco-íris abriu os braços. No passo seguinte, a água que caía com suavidade e brutalidade, parou. Fez lembrar Moisés, no Egito, quando, com seu cajado, abriu o Mar Vermelho para que o Povo Hebreu voltasse à Terra Prometida. Um unicórneo voador, com asas curtas e rápidas, igual de um beija-flor, apareceu. Em seu dorso, um homem. O cavalo voador de um chifre voou rente a Lizzy, e o homem esticou com delicadeza seus braços e a colocou atrás dele. Voaram tão longe que sua memória não conseguiu alcançar uma só lembrança.

Lizzy cancelou a passagem de volta para Boston, alugou um quarto na pensão da praia e ficou seis meses em Itapuã.

Publicado por jony1818

Sou coach, psicodramatista, triatleta e maratonista

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